• Anna Morais

À luz da Lua

Sempre tive paixão pela fotografia de palco e acredite, é uma sensação inexplicável conseguir capturar a essência dos atores e o toque de tudo que é construído nas coxias.

Existem fotógrafos de palco formidáveis aqui em Goiás, em breve conversaremos com alguns deles, mas hoje, o bate-papo é com uma Mulher da Luz, Lua Melo Franco, light designer, idealizadora do grupo "Mulheres na Luz". Lua vem nos trazer um pouco dos bastidores de um palco, do perfume depositado na cena: a luz.


Primeira iluminação autoral; espetáculo "Eu quero é falar de amor", 2018, Foto: Sabriny Melo



Nos conte um pouco sobre como a luz entrou na sua vida.


Lua Melo: Creio que eu e a luz tivemos um encontro às escuras. Em 2016, comecei a cursar Artes Cênicas pela Universidade Federal de Ouro Preto com foco na interpretação teatral sem saber que existia a possibilidade de trabalhar com iluminação. Antes da faculdade, nunca tinha assistido a um espetáculo teatral com um trabalho visual da luz, mas apenas de visibilidade. A luz existia apenas para iluminar os corpos e objetos em cena.

No segundo período da graduação, tive a disciplina “Iluminação I” cuja professora era Letícia Andrade, que hoje é minha grande amiga e parceira de trabalho. Comecei a me apaixonar logo ali, nas primeiras aulas. Ainda durante o desenrolar da disciplina, me voluntariei para ser monitora.

Em resumo: comecei a trabalhar com iluminação enquanto estudava. No semestre seguinte já era uma monitora bolsista, depois fui sendo convidada para operar e montar luzes por fora da disciplina, comecei a criar projetos autorais de luz para trabalhos de conclusão de curso...

E hoje, 4 anos depois, assinei alguns trabalhos como iluminadora, elaborei e dei oficinas de iluminação, participei de seminários, rodas de conversa, operei e montei luzes fora de Ouro Preto e agora estou trabalhando no projeto de divulgação de iluminadoras brasileiras em plataformas digitais: “#MulheresNaLuz”.


Qual a importância da luz para a construção de uma cena/cenário?


Lua Melo: A luz (ou a ausência da luz), independente da cena/cenário, tem a função básica de visibilizar ou invisibilizar superfícies. Superfícies essas que podem ser objetos, piso, parede, tecido, corpos...

O que fazer com essa luz e/ou com a escuridão é que é o barato!

A luz pode distorcer, invadir, destacar, colorir, causar ilusões, criar sombras, recortar espaços, criar espacialidades, temporalidades, imagens, acalorar o corpo e os sentidos!

Acredito que os fenômenos estéticos (sendo eles por afetação, interpretação, percepção, entre outros) que a luz causa diz mais sobre o olhar do espectador do que sobre a proposição do iluminador. Por exemplo, o iluminador pode projetar feixes de luz azuladas pelas laterais de um palco e “querer representar a noite”, mas cada espectador verá/sentirá aquela luz de uma forma única e individual.

A importância da luz, para mim, para a construção de uma cena/cenário está na sua potência para abrir caminhos de sensibilidade no espectador. Provocar novas realidades, novas revoluções internas.

E não necessariamente é preciso usar incontáveis equipamentos para isso. A luz e a “quentura” do sol ou a escuridão já fazem isso com maestria.



Qual importância da escolha certa da luz? Cores, intensidade, luz dura ou difusa podem interferir na cena?


Lua Melo: Acredito que a técnica da manipulação da luz é de suma importância para abranger as possibilidades de experimentações e formas no processo criativo e para o projeto finalizado. Quanto maior o domínio das técnicas (que estão sempre em inovação como qualquer outra tecnologia), maior a capacidade de agir e resolver problemas com velocidade e assertividade.

As qualidades da luz (dureza, cor, intensidade) interferem e muito na cena! Cada escolha é um recorte perceptivo para quem assiste.

A ideia de “certo” e “errado”, no meu ver é relativo. Cada processo criativo “chama” por uma luz, a depender do olhar do iluminador.


Sabemos que não há fotografia sem luz. Você tem alguma dica para fotógrafos que querem se destacar com a iluminação?


Lua Melo: O fotógrafo, devido a sua capacidade adquirida e aguçada de percepção da imagem e dos seus elementos, tem benefícios por ter um olhar treinado para a percepção da luz. Conheço diversas iluminadoras que começaram pela fotografia e falam de ambas as áreas com paixão.

Não sou fotógrafa e nunca trabalhei com fotografia, então não sei se consigo dar uma dica. Mas posso sugerir uma provocação: emoldurar o olhar para o mundo sem a câmera. Perceber a luz, experimentar...

Vou compartilhar um exemplo que tenho: ao tomar banho, perceber por onde entra a luz do sol, o movimento que ela faz ao passar dos minutos, como ela vai criando densidade e textura com o vapor da água quente, como o azulejo a reflete, se há algo que barra a entrada dessa luz (como um “gobo” talvez). Brinco que “tudo é gobo”.

Depois de perceber as possibilidades da luz, é hora de experimentar isso num laboratório. Pode ser na sua casa com uma lanterna. Segue aos poucos, afinando... e se divertindo!

E, junto a isso, indico muito estudo e leitura. Valmir Perez, Nadia Luciani, Rodrigo Assis “Horse”, Cibele Forjaz, Dodi Leal, Berilo Nosella e Roberto Gil Camargo são nomes de pesquisadores em luz que me formaram e me formam todos os dias enquanto artista da luz. Também recomendo a leitura dos artigos de iluminação cênica da revista Urdimento, da UDESC (Florianópolis, Santa Catarina).

E temos tantos outros conteúdos que estão sendo realizados e disponibilizados nesse período de quarentena. Em formato de live, vídeo, postagens, cursos, oficinas. O que mais tem é informação, agora é só se direcionar para saber por onde começar!


Você trabalha principalmente com iluminação de palco. Quais maiores "pecados" de uma fotografia de palco?


Lua Melo: Pergunta difícil! Já conversei sobre isso com outras iluminadoras e com fotógrafas. Não me sinto no direito de questionar a estética pessoal de cada artista da fotografia. Mas sempre é necessário estar de acordo com o/a fotógrafo/a a respeito do uso das fotos.

Se as fotos vão para o portfólio (para serem usadas posteriormente para inscrição em editais, por exemplo) a foto precisa mostrar o que se vê na cena, o mais próximo da realidade possível. É um registro.

Já “perdi” todas as fotos de um trabalho com luz porque o fotógrafo as editou todas em preto e branco, por exemplo.

Algumas fotógrafas que fotografaram algumas luzes que eu realizei já estavam cientes disso e não editaram tanto as fotos. O segredo delas estava na angulação das fotos e, principalmente, na captação de momentos! Fico surpresa com cada detalhe que é capturado por essas lentes! O registro conta estórias.

Inclusive, mando um salve para todos os fotógrafos que estão lendo isso. Pois sei que é difícil trabalhar em circunstâncias que não são favoráveis. Mas já aprendi: é obrigatório pensar no espaço de trânsito desse fotógrafo para pegar os melhores ângulos.

O “pecado” mesmo é não dialogar com a equipe... o resto é tranquilo.



Em "tempos difíceis", nasceu o projeto Mulheres na Luz. O que são as Mulheres na Luz?


Lua Melo: O Mulheres na Luz é um projeto de divulgação do trabalho de mulheres iluminadoras do Brasil, garantindo um espaço de apoio e compartilhamento de conhecimento. Através de postagens no Instagram @mulheres_na_luz, no Facebook pela página "Mulheres na Luz" e pelo YouTube no canal (também chamado de) Mulheres na Luz, uma nova convidada a cada semana deixa sua trajetória na carreira e suas técnicas de trabalho públicas para quem quiser conhecer. Desde a participação da iluminadora Dodi Leal, lives também fazem parte da programação do projeto, além de vídeos-tutoriais com a iluminadora Aline Rodrigues às terças-feiras. Hoje a rede é composta por mais de 150 iluminadoras e só tende a crescer. Cláudia de Bem, Nadia Luciani, Nadja Naira, Camila Tiago, Karina Figueredo são umas das mulheres que já passaram por esse projeto, que hoje soma o total de 15 convidadas representantes de 9 estados do Brasil. Para quem tiver o interesse de conhecer ou participar do Mulheres Na Luz, basta seguir o projeto nas redes sociais.

Além do fator “conteudista” do Mulheres Na Luz, sempre gosto de ressaltar a importância social desse movimento. Pelo nosso grupo de apoio, nos damos assistência a respeito de questões de classe, raça, sexualidade, gênero (e várias outras questões) relacionados às nossas vidas pessoais e profissionais. É um grupo muito ativo, com conversas diárias, de onde surgem muitas alegrias, relatos de conquistas (e de tristezas), muita pesquisa, muito estudo, muita troca de conhecimento. É um espaço seguro para nós mulheres iluminadoras. O Mulheres Na Luz tem sido um dos meus motivos para acordar, me sentir bem e com esperança num mundo mais igualitário e afetuoso.




Lua Melo Franco é graduanda em Artes Cênicas (modalidade: Interpretação Teatral) pela Universidade Federal de Ouro Preto (MG). É técnica em Edificações pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais - Campus Curvelo, atriz e iluminadora cênica em formação. Já trabalhou como caracterizadora e atualmente trabalha no Instituto Federal de Minas Gerais e é aliada do projeto de divulgação do trabalho de iluminadoras "Mulheres na Luz". Já assinou mais de 15 criações autorais de iluminação cênica e já montou e operou dezenas de luzes em apenas 3 anos de carreira na área. Sua pesquisa, tanto na área da interpretação quanto na iluminação parte do estudo do espectador, da performatividade da luz, da recepção e da contemplação ativa. 

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